Turno Da Noite

Aquelas horas mortas entre o café e a noite

Trabalhar num café perto de Lisboa é uma terapia e, às vezes, um treino para a noite que lá vem. Hoje, apareceu um cliente diferente. Não fosse...

Trabalhar num café perto de Lisboa é uma terapia e, às vezes, um treino para a noite que lá vem. Hoje, apareceu um cliente diferente. Não fosse ele tão simpático e atento, e a conversa teria sido só mais uma troca de palavras para satisfazer adrenalina e solidão.

Sentei-me no canto, cansada, a beber um copo de água enquanto ele esperava. Ele falava das coisas mais banais — futebol, o trabalho, o tempo. Tinha aquele jeito despretensioso de quem não passa da superfície mas, ao mesmo tempo, parecia genuíno, como se precisasse de uma audiência de verdade. Eu não me fiz de difícil, puxei a conversa, e aos poucos as palavras deslizaram para zonas mais pessoais.

Confessou que a solidão o sufocava, um pouco como eu que, no meu bairro, sorrio para os clientes da manhã enquanto os dedos se apertam para não sentir o frio da noite que se avizinha. Talvez por isso simpatizámos. Ele não queria mais que uma companhia, alguém que ouvisse sem julgar. E eu, cansada de escolher palavras para esconder mais que mostrar, admirei essa simplicidade.

No fim, quando ele se levantou, ficou aquele silêncio confortavelmente partilhado. Talvez não tenha sido um encontro de trabalho. Talvez tenha sido apenas dois humanos a tentar decifrar o que é estar sozinhos, mesmo acompanhados.

1