Turno Da Noite

Um estranho silêncio no meio da rotina agitada

Hoje, ao contrário do habitual, não foi o luar que pediu meu serviço, mas sim a luz pálida das primeiras horas da madrugada. Estava no meu turno...

Hoje, ao contrário do habitual, não foi o luar que pediu meu serviço, mas sim a luz pálida das primeiras horas da madrugada. Estava no meu turno no café, naquela monótona terça-feira, quando o telefone tocou. Pediu para vir a casa. Quando chegou, não foi indiferente nem apressado, algo raro no meu trabalho da noite. Ficámos ali, ele e eu, sentados mais tempo do que o costume, sem pressa.

Nunca tinha visto alguém que não tentasse esconder a sua vulnerabilidade em troca do que ofereço. Ele falava devagar, olhava nos meus olhos, partilhava histórias que pareciam pesar-lhe na alma. Normalmente, as pessoas chegam e querem o meu corpo, escondendo as suas emoções atrás de máscaras. Mas ele... foi diferente.

Naquela noite, não houve pressa nem silêncio incómodo, só uma sensação inesperada: conexão. Tive a sensação que, por breve momento, não estava a vender um serviço, mas a dar um pedaço de mim a quem realmente precisava. Quando se foi embora, fiquei a pensar se todos os clientes podiam ser assim — humanos, só humanos.

Depois, regressei ao café, aos olhares apressados e ao barulho das máquinas, com um sorriso nostálgico. A vida dá-nos estas estranhas pausas para lembrar que, por detrás de cada pessoa, existe muito mais que apenas a superfície.

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