Hoje foi um daqueles dias em que o contraste da minha vida se sente mais do que nunca. De manhã, no café onde trabalho nos arredores de Lisboa, tudo calmo, clientes apressados a pedir o habitual café e tostas. À noite, o meu outro lado desperta, e as histórias que cruzam a minha porta nunca deixam de surpreender.
Esta madrugada, entrou um tipo ajeitadinho, provavelmente vindo directo de um escritório, daqueles que eu só via de longe durante o dia. Com cheiro a perfume caro e umas roupas que mais pareciam uma armadura para reuniões de poder. Pensei que ia ser mais um cliente frio, sem graça, daqueles que só querem rapidez e pouco mais.
No entanto, surpreendeu-me. Sem cerimónias, começou a desfiar versos como se fosse um poeta perdido na cidade. Falava de noite, de solidão, até de esperança, e a sua voz rouca tinha qualquer coisa que prendia. A certa altura, pediu que eu não apenas fosse ouvinte, mas que participasse, que partilhasse algo de mim.
Aquela inesperada abertura quebrou o habitual distanciamento que tento manter. No meio daquele quarto pequeno e abafado, entre um copo de vinho e outro, percebi que mesmo numa vida feita de encontros rápidos e olhos distraídos, há espaço para momentos genuínos.
Saíu com um sorriso diferente, e deixou-me a pensar que, por vezes, as pessoas que menos esperamos trazem a luz mais inesperada. E amanhã, lá estarei, a servir cafés, guardando a história do poeta da madrugada.
Quando o cliente do escritório se revelou poeta na madrugada
Hoje foi um daqueles dias em que o contraste da minha vida se sente mais do que nunca. De manhã, no café onde trabalho nos arredores de Lisboa,...
