Turno Da Noite

Uma noite em que o cliente me falou de livros no meio da cidade

Hoje estava no bairro que conheço de cor, sentada no café onde trabalho durante o dia, a arrumar os copos, quando pensei na noite anterior. Foi uma...

Hoje estava no bairro que conheço de cor, sentada no café onde trabalho durante o dia, a arrumar os copos, quando pensei na noite anterior. Foi uma daquelas noites estranhas, em que esperas os mesmos tipos de conversas vazias, mas afinal acontece algo que desconcerta.

Um homem entrou, vestido de maneira impecável, demasiado arranjado para o que costumo ver. Pediu sem rodeios o meu preço, como sempre. Quando já íamos para o quarto, ele parou, olhou-me nos olhos e começou a falar de literatura. Sorri, desconfiada, porque é uma abordagem que não esperava. Falámos sobre Proust — que curiosamente me fazia lembrar o blog que escrevo, cheio de pensamentos soltos da noite.

Ele parecia quase nervoso a dizer que gostava de filosofar, algo completamente fora do que me habituo a ouvir naquele ambiente. No meio dos silêncios, falou dos livros como se fossem uma fuga da vida dele. Foi estranho, intenso e sinceramente desconfortável — um cliente que, por um instante, deixou de ser só isso.

Saí dali com uma sensação que não consigo explicar: não era só mais uma noite, era uma conversa que me fez pensar que por vezes carregamos máscaras, tanto ele como eu, mas que há momentos em que se desvanecem, mesmo que por umas horas.

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