Hoje o turno no café correu como sempre — clientes apressados, conversas interrompidas pelo barulho das máquinas. Gosto daquela rotina, é o que me mantém ancorada durante o dia. À noite, claro, a história muda.
Num desses encontros nocturnos, apareceu um homem corporalmente banal, mas com um detalhe invulgar: usava sapatos com cores diferentes, um verde-limão e outro vermelho vivo. Não era qualquer descuido, parecia uma escolha consciente, quase um enigma a descobrir.
Ficámos num jantar rápido, ele falava pouco, no entanto dava para notar que queria experimentar mais do que o óbvio. Quando me pediu para lhe “ler as linhas da mão”, percebi logo que aquela noite ia ser diferente. Rimo-nos, claro, mas a sua insistência tinha algo sincero. Terminei a consulta às escondidas entre beijos e sussurros, e por estranho que pareça, saí dali a pensar nas ruas que andei, nas cores que escolho esconder.
Foi um momento fugaz, de conexão silenciosa, onde o estranho tornou-se familiar bom, na confusão dos nossos universos paralelos. Talvez tenha sido só um capricho, mas a partir daí nunca mais vi os meus sapatos com o mesmo olhar.
Às vezes, nos trabalhos que pareciam só transacionais, aparecem momentos que ficam mais dentro do que fora. É isso que torna esta vida dupla tão complexa e, confesso, irresistível.
Aquele pedido estranho que me fez repensar tudo
Hoje o turno no café correu como sempre — clientes apressados, conversas interrompidas pelo barulho das máquinas. Gosto daquela rotina, é o que...
