Turno Da Noite

Entre cafés e encontros na madrugada, a vida tem outras cores

Hoje acordei a pensar que a minha rotina nunca é igual, apesar de trabalhar sempre no mesmo sítio — um café sossegado nos arredores de Lisboa,...

Hoje acordei a pensar que a minha rotina nunca é igual, apesar de trabalhar sempre no mesmo sítio — um café sossegado nos arredores de Lisboa, onde vejo a cidade acordar e as pessoas começarem o dia com pressa ou desaceleração. Ao final do dia, troco o avental por um outro papel que poucos imaginam.

Há momentos, naquela noite, em que a energia da pessoa que me procura me surpreende. Não é só pelo que se paga, é mesmo pela curiosidade do outro, pela urgência de um toque que não se encontra nas entrelinhas do dia a dia. Na passada quinta-feira, por exemplo, conheci um homem que cheirava a mar e a tédio. Falava pouco, mas os olhos diziam que queria fugir por algumas horas. A química instalou-se de forma quase mágica, e senti aquela eletricidade suave a passar entre nós, como se naquela curta escapadela o tempo tivesse outra velocidade.

Por vezes, os meus clientes trazem histórias mais pesadas, outras vezes trazem só a vontade de se sentirem vivos, mesmo que por instantes. Eu escuto, não julgo, e entrego-me a esse momento de troca de energias, onde cada toque e palavra tem peso. É uma vida que aprendi a aceitar, sem vergonha, porque também é feita de encontros intensos que me permitem sonhar acordada durante o café da manhã.

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