Turno Da Noite

No silêncio quente de uma noite inesperada

Nunca pensei que a rotina do café e a rua tivessem tanto em comum até aquela noite. Depois de fechar, vesti a pele que a cidade conhece quando as...

Nunca pensei que a rotina do café e a rua tivessem tanto em comum até aquela noite. Depois de fechar, vesti a pele que a cidade conhece quando as luzes se apagam. Ele entrou no meu mundo com um olhar que não me largava — nada pedi, só esperei pelo instante certo, aquele em que o silêncio pesa mais que as palavras. A tensão não vinha do toque, vinha daquela espera mútua, do mistério do que cada um trazia escondido. No dia, faço café com um sorriso controlado; à noite, entrego-me a instantes que queimam mais porque a alma está a nu, sempre à espreita de algo que nunca sei bem o que é. Ele não perguntou nada, só ficou ali, parado, firme como se fosse entender o que eu não dizia, mesmo quando o medo me apertava o peito. A rua estava vazia, mas nunca me senti tão exposta e ao mesmo tempo tão invisível. Talvez ele soubesse o que eu precisava naquela noite ou talvez fosse só o silêncio dele, mais pesado, a carregar palavras que não cabiam num café de manhã, nem numa conversa à espera dos clientes. Nunca mais o vi, mas a energia daquela noite está gravada em mim, como uma cicatriz que arde quando a solidão vem visitar.

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