Hoje o copo de vinho na mão parecia pesar mais que o costume. Depois do turno no café, onde o cheiro a pão fresco ainda me persegue, vesti o meu casaco preto e saí para a rua que nunca dorme. Encontrei-me com o Miguel perto do Cais, um tipo que olhava para mim com aquela mistura de curiosidade e ansiedade que custa decifrar.
Ele não falou muito, mas o silêncio entre nós não foi desconfortável, mais pesado, quase latente. Um misto de palavras por dizer e toques contidos, como se estivéssemos numa coreografia ensaiada mas a pedir improviso. Esses pequenos detalhes – o jeito como ajeitava os óculos, o nervoso a mexer na moeda que tinha no bolso – fizeram o tempo dilatar.
Notei no olhar dele uma urgência que não tem nada a ver com os cafés fresquinhos da manhã ou o barulho do trânsito lá fora. Foi estranho, quase estranho demais sentir tanta vida numa troca tão breve. À luz fraquinha do candeeiro naquela rua, percebi que, além do que faço quando o sol brilha, esta energia que nos une durante a noite também me pesa, às vezes mais do que a movimentação das mesas no café.
Voltei para casa a pensar: nem sempre os encontros são só negócio ou rotina, há pedaços de nós que ficam à espera de ser entendidos, mesmo no silêncio mais denso.
Noite e Dia: Entre Café e Quatro Paredes
Hoje o copo de vinho na mão parecia pesar mais que o costume. Depois do turno no café, onde o cheiro a pão fresco ainda me persegue, vesti o meu...
