Turno Da Noite

Noites de Lisboa: confissões entre café e clientes

Hoje foi daquelas noites que me deixam a matutar ao fim, sabe? Trabalho no café das 9 às 17, uma vida simples e quase invisível nos arredores da...

Hoje foi daquelas noites que me deixam a matutar ao fim, sabe? Trabalho no café das 9 às 17, uma vida simples e quase invisível nos arredores da cidade. Depois, visto outra pele e sigo para a rua, onde sou senhora do meu tempo, mas nem sempre do que me dizem.

Recebi um cliente mais discreto, aquele tipo que não vem para cenas rápidas ou palavras soltas. Sentou-se na cadeira, não perto, mas o suficiente para senti-lo. Falámos de tudo e de nada — a conversa não era só sobre o que eu oferecia, mas sobre medos, sonhos que ele despede à noite, quando ninguém vê.

O desconforto não era só meu. Ele hesitava, e eu acabava por ser aquela que, estranhamente, parecia ter um conselho ou um ouvido a sério. Às vezes, é isso que pesa: ser escuta sem poder mudar muito. O silêncio entre frases, as pausas que pesam mais que o vai-e-volta da vida diurna do café, é onde realmente se ganha a dimensão disto.

No final, ele pagou e disse, com um olhar meio perdido, «obrigado por me ouvires». Saí da rua e voltei para o silêncio das mesas limpas do café, onde ninguém me vê para além do que sirvo e sorrio. É preciso saber guardar certas histórias.

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