Turno Da Noite

Quando o café fecha, a noite abre portas que ninguém vê

Hoje a minha jornada começou como de costume, atrás do balcão do café, num bairro sossegado nos arredores de Lisboa. Era uma manhã tranquila,...

Hoje a minha jornada começou como de costume, atrás do balcão do café, num bairro sossegado nos arredores de Lisboa. Era uma manhã tranquila, só o cheiro a pão fresco e café a acordar os clientes habituais. A meio do turno, uma senhora entrou, pediu um pastel de nata e sorriu-me como se me conhecesse há anos. Fiquei com aquele sorriso na cabeça durante toda a tarde.

Depois do trabalho, vesti o meu outro papel — aquele que só alguns conhecem, aquele que é um segredo guardado entre as luzes dos postes e os passos apressados na calçada. Na rua que escolhi para trabalhar, aconteceu algo que me marcou. Um cliente que parecia sempre apressado parou para comentar que os meus olhos tinham um brilho especial quando eu ria.

Não disse nada, só sorri de volta. Aquele minuto — pouco mais que um instante — não virou a noite de pernas para o ar, nem mudou o rumo do dinheiro ou do jogo, mas fez-me sentir substância e não simples corpo. É engraçado como, entre o café à luz do dia e as luzes da cidade à noite, a minha alma se lembra que pode ser mais do que só trabalho.

Por vezes, são estes pequenos momentos que nos mantêm inteiros, quando o resto parece feito para nos fragmentar.

2