Turno Da Noite

Uma garrafa de água e um segredo no banco do jardim

Três da manhã. Saio do quarto alugado — sempre o mesmo, com cheiro a melancolia e desespero. Na rua, o silêncio é quase palpável, interrompido...

Três da manhã. Saio do quarto alugado — sempre o mesmo, com cheiro a melancolia e desespero. Na rua, o silêncio é quase palpável, interrompido só pelo ruído do meu salto contra o chão frio. Depois do trabalho, caminho até ao jardim ao lado do café onde limpo mesas todos os dias de manhã.

Hoje, encontrei uma garrafa de água quase cheia no banco, com uma nota amassada dentro. Não era nada de dramático, apenas um “Obrigado, por seres quem és” escrito com uma caligrafia tremida. Fiquei a encarar aquilo ao longe, porque às vezes, é no meio do caos da noite que alguma coisa inocente nos toca. Trabalhar no café é tudo menos glamouroso, mas hoje senti-me, por um segundo, algo além do que as palavras do dia-a-dia me dizem: alguém viu-me como uma pessoa.

É estranho como, naquela garrafa, enrolada e quase esquecida ao frio da madrugada, estava algo que nunca me deram na profissão que escolhi — um reconhecimento simples. Eu que passo horas a sorrir para desconhecidos numa esquina e depois a trocar olhares por dinheiro noutra, percebi que precisamos mais destes pequenos gestos invisíveis para nos sentirmos reais. Levei a garrafa comigo até casa, talvez para lembrar que, mesmo na solidão, há ecos de humanidade.

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